sexta-feira, 22 de maio de 2009
terça-feira, 5 de maio de 2009

Anúncios de fuga, venda e aluguel de escravos: Os Classificados do Século XIX

Os anúncios de fuga, venda e aluguel de negros, no século XIX, podem ser considerados os primórdios dos atuais classificados que se encontram impressos nos jornais que circulam no cotidiano do País. Analisando sob o prisma econômico, o negro era considerado uma mercadoria (um bem) do qual seu proprietário fazia o uso que desejasse; ainda isento de qualquer culpa moral, pois a Igreja considerava o negro desprovido de alma; logo não humano.
O Brasil tinha uma economia baseada no latifúndio e mão de obra escrava, onde o status social era proporcional à quantidade de escravos que o proprietário possuia para servi-lo. A fuga ou morte de um deles representava um prejuízo financeiro a seu dono. Nesse nefando mercado, o tráfico negreiro oferecia escravos com altas taxas de custo e supria a falta de mão de obra, adquirida na "Mãe Africa", por baixos valores ou pelo simples sistema de troca.
O negro saudável, em boa condição física, tinha um valor monetário alto, e muitos enriqueceram praticando esta intermediação comercial; inclusive irmãos de etnia que, depois de comprarem sua liberdade (alforria), ganhavam dinheiro com o aprisionamento e transporte nos tumbeiros (navios) dos seus "irmãos de cor", para serem comercializados.
Ainda paradoxal, é o fato de existirem jornais que defendiam um discurso abolicionista, porém, devido a dificuldades de ordem econômica, divulgavam esses anúncios.
A Revolução Industrial, liderada pela Inglaterra, trouxe mudanças nas relações de trabalho e produção, embora a exploração de mão de obra permanecesse, dando origem a vários movimentos e greves de operários (movimento proletário) que foram se organizando, enquanto classe, na defesa de seus direitos e melhores salários. Crianças e mulheres eram exploradas pelos proprietários das fábricas.
Retomando a escravidão negra, quando foi do interesse britânico, os ingleses criaram uma lei proibindo o Tráfico Negreiro, pois o dinheiro investido, nesse mercado, poderia ser utilizado na compra de suas mercadorias, gerando riqueza para o país.
O Brasil foi o último país a realizar, tardiamente, a abolição (1888) na América. A mesma se efetivou sem a preocupação de como incluir essa população liberta numa sociedade que oferecia a liberdade, mas não a inclusão social. Não se criou mecanismos que possibilitassem ao negro de exercer sua cidadania, em um universo onde a classe dominante (elite) era branca. A sociedade sente estes reflexos de uma política colonialista e escravocrata até os dias de hoje. O racismo assumido ou velado, sob os artífices da hipocrisia, constitui-se sempre em uma grande temeridade em qualquer sociedade dita civilizada!
Texto: Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite / Pesquisador e Coordenador do Setor de Imprensa / MUSECOM
sexta-feira, 3 de abril de 2009
ANCESTRALIDADE

Ouço no vento
O soluço do arbusto.
É o sopro dos antepassados.
Nossos mortos não partiram,
Estão na densa sombra.
Os mortos não estão sob a terra.
Estão na árvore que se agita,
Na madeira que geme,
Estão na água que flui,
Na água que dorme,
Estão na cabana, na multidão.
Os mortos não morreram.
Nossos mortos não partiram.
Estão no ventre da mulher,
No vagido do bebê e no tronco que queima.
Os mortos não estão sob a terra,
Estão no fogo que se apaga,
Nas plantas que choram,
Na rocha que geme,
Estão na floresta,
Estão na casa.
Nossos mortos não morreram.
Birago Diop
Poeta Africano.
A Carta de Caxias.
Esta é a "polêmica" carta que o Barão de Caxias "teria enviado" a Francisco Pedro de Abreu, o Moringue, instruindo seu comandante para atacar os soldados negros no Cerro de Porongos.
Clique no texto da carta para ampliar.
O, então, Barão de Caxias.
O original encontra-se no Memorial do Rio Grande do Sul em Porto Alegre.terça-feira, 31 de março de 2009
Paulo Paim e os Lanceiros Negros
segunda-feira, 30 de março de 2009
A Revolução Farroupilha (1835 - 1845) Registrada na "Imprensa Gaúcha"
Carlos Roberto S. da Costa Leite*
Para que compreendamos a importância da imprensa, no processo histórico, durante o século XIX, é necessária uma breve abordagem dos fatos políticos que ocorreram naquele período.
Após o surgimento do primeiro periódico gaúcho, o “Diário de Porto Alegre”, em 1827, nossa imprensa assumiu o caráter político-partidário, combatendo e denunciando as arbitrariedades políticas e econômicas do Governo Imperial ou apoiando a política absolutista do imperador D.Pedro I. Após sua abdicação (1831), durante governo das regências, Legalistas e liberais travaram discussões calorosas nos jornais da época que culminaram com a eclosão da Revolução Farroupilha, em setembro 1835, com a tomada de N. Sra. Madre de Deus de Porto alegre.

Desde a “Independência do nosso País”, em 1822, após tantas lutas, nosso povo esperava uma constituição, que representasse os anseios de autonomia e representação política das províncias no governo central. Os ideais liberais foram defendidos por Hipólito José da Costa, ”Patrono da Imprensa no Brasil”, e responsável pela publicação do primeiro jornal brasileiro, o “Correio Braziliense”, editado, em Londres, em 01/06/1808, em português. O mensário circulou no Brasil e Portugal, clandestinamente, devido à proibição da Censura Régia de circularem impressos que criticassem a política lusitana. O jornal encerrou sua circulação, em dezembro de 1822, quando, Hipólito José da Costa, deu por concluída a sua missão doutrinária, após a Independência do Brasil. Hipólito defendeu a Monarquia Constitucional e chegou a propor um anteprojeto da constituição, que foi ignorado pelo imperador D. Pedro I.

Contrariando as expectativas de participação política das Províncias, nosso Imperador centralizou o poder e dissolveu a Assembléia Constituinte, em 1823, que seria responsável pela elaboração da nossa primeira Constituição. D. Pedro I criou o poder Moderador e centralizou o poder, outorgando uma constituição nos moldes absolutistas, em 1824. Essa atitude, despótica e antipática, foi de encontro à facção liberal que desejavam uma Monarquia Constitucional e aos liberais mais exaltados, que sonhavam com a República, conhecidos como “Farroupilhas”.
O clima político-social do País foi se tornando tenso, resultou no processo de abdicação do trono, em abril 1831, em favor do seu filho Pedro de Alcântara. O futuro imperador não tinha idade para governar, e devido a este fato instalou-se o Governo de Regências, até que o menino atingisse a maioridade. Um golpe em 1840 antecipou a maioridade do Imperador D. Pedro II, que contava com 14 anos, iniciando o II reinado no Brasil (1840-1889).
Hipólito da Costa
A falta da figura do imperador, representando a unidade nacional, somado aos problemas administrativos e econômicos deram origem a várias revoltas, em diferentes províncias do Império, entre as quais a “Revolução Farroupilha” (1835-1845), que foi a mais longa de todas. Em setembro de 1836, em Seival, próximo de Bagé, Souza Neto proclamou a República Rio-Grandense. Até aquele momento, todas as tentativas republicanas ocorridas em outras Províncias, ao longo da história do Brasil, haviam fracassado.
Todo este processo político foi divulgado através da imprensa nacional e local. Os jornais divulgavam e defendiam posições políticas. Alguns periódicos apoiavam o governo central e outros criticavam de maneira ferrenha a política do Império. Nesses embates políticos, muitos jornalistas foram presos, espancados e até mortos no exercício da luta por um ideal de justiça. Frei Caneca, Cipriano Barata, João soares Lisboa, Luis Augusto May, Evaristo da Veiga, Líbero Badaró, Joaquim Nabuco entre outros nomes, tiveram um desempenho relevante na luta por um Brasil mais justo, pertencendo à galeria dos nomes ilustres que fazem parte da História da imprensa brasileira.
No Rio Grande do Sul, não podemos esquecer os nomes dos jornalistas como: Lourenço de Castro Júnior, Vicente Ferreira Gomes, Francisco Xavier Ferreira (Chico da Botica), o italiano Rossetti, entre outros, que defenderam os ideais de liberdade de expressão, nos primórdios do nosso jornalismo. Entre 1827 a 1850, foram editados 61 jornais no RS, sendo que 37 foram impressos na cidade de Rio Grande, incluindo os órgãos oficiais da República Rio-Grandense: “O Povo” (Piratini e Caçapava - 1838 a 1840); “O Americano” (1842 a 1843 - Alegrete); Estrella do Sul (1843 – Alegrete).
A leitura dos jornais redigidos e impressos, no século XIX, por jornalistas que vivenciaram os fatos da história, é uma experiência única. À medida que vamos folheando suas amareladas páginas, é como que mergulhássemos no oceano do tempo. Essa imprensa registrou e legou às futuras gerações um patrimônio de informação de valor incalculável.
A Imprensa Farroupilha foi fundamental na divulgação dos ideais liberais, através dos artigos dos periódicos que criticavam e denunciavam os abusos administrativos e econômicos, que a província de São Pedro sofria, por parte do poder central. Divulgar a intensa atividade da imprensa gaúcha, que, desde 1827, tem participado ativamente nos momentos significativos da história do Rio Grande do Sul é resgate histórico imprescindível.
O saudoso escritor e pesquisador, Rodrigues Till, afirmou, em um discurso de posse no Instituto Histórico e Geográfico de Santa Maria: ...E um país sem imprensa, sem democracia – bem o sabemos! – é um país que jamais terá guarida na História. Jamais terá guarida na história do Mundo Moderno.... (22/11/1991, Santa Maria,RS).
* Pesquisador e Coordenador do Setor de Imprensa do Museu de Comunicação Social Hipólito da Costa.
Para que compreendamos a importância da imprensa, no processo histórico, durante o século XIX, é necessária uma breve abordagem dos fatos políticos que ocorreram naquele período.Após o surgimento do primeiro periódico gaúcho, o “Diário de Porto Alegre”, em 1827, nossa imprensa assumiu o caráter político-partidário, combatendo e denunciando as arbitrariedades políticas e econômicas do Governo Imperial ou apoiando a política absolutista do imperador D.Pedro I. Após sua abdicação (1831), durante governo das regências, Legalistas e liberais travaram discussões calorosas nos jornais da época que culminaram com a eclosão da Revolução Farroupilha, em setembro 1835, com a tomada de N. Sra. Madre de Deus de Porto alegre.

Desde a “Independência do nosso País”, em 1822, após tantas lutas, nosso povo esperava uma constituição, que representasse os anseios de autonomia e representação política das províncias no governo central. Os ideais liberais foram defendidos por Hipólito José da Costa, ”Patrono da Imprensa no Brasil”, e responsável pela publicação do primeiro jornal brasileiro, o “Correio Braziliense”, editado, em Londres, em 01/06/1808, em português. O mensário circulou no Brasil e Portugal, clandestinamente, devido à proibição da Censura Régia de circularem impressos que criticassem a política lusitana. O jornal encerrou sua circulação, em dezembro de 1822, quando, Hipólito José da Costa, deu por concluída a sua missão doutrinária, após a Independência do Brasil. Hipólito defendeu a Monarquia Constitucional e chegou a propor um anteprojeto da constituição, que foi ignorado pelo imperador D. Pedro I.

Contrariando as expectativas de participação política das Províncias, nosso Imperador centralizou o poder e dissolveu a Assembléia Constituinte, em 1823, que seria responsável pela elaboração da nossa primeira Constituição. D. Pedro I criou o poder Moderador e centralizou o poder, outorgando uma constituição nos moldes absolutistas, em 1824. Essa atitude, despótica e antipática, foi de encontro à facção liberal que desejavam uma Monarquia Constitucional e aos liberais mais exaltados, que sonhavam com a República, conhecidos como “Farroupilhas”.
O clima político-social do País foi se tornando tenso, resultou no processo de abdicação do trono, em abril 1831, em favor do seu filho Pedro de Alcântara. O futuro imperador não tinha idade para governar, e devido a este fato instalou-se o Governo de Regências, até que o menino atingisse a maioridade. Um golpe em 1840 antecipou a maioridade do Imperador D. Pedro II, que contava com 14 anos, iniciando o II reinado no Brasil (1840-1889).
Hipólito da CostaA falta da figura do imperador, representando a unidade nacional, somado aos problemas administrativos e econômicos deram origem a várias revoltas, em diferentes províncias do Império, entre as quais a “Revolução Farroupilha” (1835-1845), que foi a mais longa de todas. Em setembro de 1836, em Seival, próximo de Bagé, Souza Neto proclamou a República Rio-Grandense. Até aquele momento, todas as tentativas republicanas ocorridas em outras Províncias, ao longo da história do Brasil, haviam fracassado.
Todo este processo político foi divulgado através da imprensa nacional e local. Os jornais divulgavam e defendiam posições políticas. Alguns periódicos apoiavam o governo central e outros criticavam de maneira ferrenha a política do Império. Nesses embates políticos, muitos jornalistas foram presos, espancados e até mortos no exercício da luta por um ideal de justiça. Frei Caneca, Cipriano Barata, João soares Lisboa, Luis Augusto May, Evaristo da Veiga, Líbero Badaró, Joaquim Nabuco entre outros nomes, tiveram um desempenho relevante na luta por um Brasil mais justo, pertencendo à galeria dos nomes ilustres que fazem parte da História da imprensa brasileira.
No Rio Grande do Sul, não podemos esquecer os nomes dos jornalistas como: Lourenço de Castro Júnior, Vicente Ferreira Gomes, Francisco Xavier Ferreira (Chico da Botica), o italiano Rossetti, entre outros, que defenderam os ideais de liberdade de expressão, nos primórdios do nosso jornalismo. Entre 1827 a 1850, foram editados 61 jornais no RS, sendo que 37 foram impressos na cidade de Rio Grande, incluindo os órgãos oficiais da República Rio-Grandense: “O Povo” (Piratini e Caçapava - 1838 a 1840); “O Americano” (1842 a 1843 - Alegrete); Estrella do Sul (1843 – Alegrete).
A leitura dos jornais redigidos e impressos, no século XIX, por jornalistas que vivenciaram os fatos da história, é uma experiência única. À medida que vamos folheando suas amareladas páginas, é como que mergulhássemos no oceano do tempo. Essa imprensa registrou e legou às futuras gerações um patrimônio de informação de valor incalculável.A Imprensa Farroupilha foi fundamental na divulgação dos ideais liberais, através dos artigos dos periódicos que criticavam e denunciavam os abusos administrativos e econômicos, que a província de São Pedro sofria, por parte do poder central. Divulgar a intensa atividade da imprensa gaúcha, que, desde 1827, tem participado ativamente nos momentos significativos da história do Rio Grande do Sul é resgate histórico imprescindível.
O saudoso escritor e pesquisador, Rodrigues Till, afirmou, em um discurso de posse no Instituto Histórico e Geográfico de Santa Maria: ...E um país sem imprensa, sem democracia – bem o sabemos! – é um país que jamais terá guarida na História. Jamais terá guarida na história do Mundo Moderno.... (22/11/1991, Santa Maria,RS).
* Pesquisador e Coordenador do Setor de Imprensa do Museu de Comunicação Social Hipólito da Costa.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Escravos farrapos Documento que revela massacre de soldados negros por líderes farroupilhas gera polêmica até hoje
Meses finais da Guerra dos Farrapos. Madrugada de 14 de novembro de 1844. Tropas imperiais comandadas pelo coronel Francisco Pedro de Abreu (1811-1891), o Moringue, atacam soldados farroupilhas que estavam acampados nas imediações do Cerro de Porongos, no atual município de Pinheiro Machado, no estado do Rio Grande do Sul, resultando na morte e na prisão de muitos. Em sua maioria, eram lanceiros negros, escravos que lutavam no exército farroupilha em troca da promessa de alforria. Anos depois, a divulgação de um documento que ficaria conhecido como Carta de Porongos, revelando um suposto acordo entre lideranças militares para dizimar esses lanceiros, inicia uma controvérsia que gera polêmica até hoje.
A Guerra dos Farrapos, ou Revolução Farroupilha (1835-1845), foi o maior dos conflitos internos enfrentados pelo governo imperial. Durante dez anos, uma parcela da elite pecuarista rio-grandense, motivada por fatores políticos e econômicos, sustentou uma revolta contra o poder imperial, chegando a proclamar a República Rio-Grandense em 1836.
Para arregimentar soldados, os farroupilhas incorporaram escravos às suas fileiras, prometendo em troca a liberdade após o fim do conflito. De olho na alforria, alguns negros fugiram das propriedades onde eram mantidos escravos para aderir à luta. Outros foram cedidos por senhores de terra que apoiavam a revolução. Já senhores contrários ao movimento podiam ter seus escravos capturados à força, como aconteceu nas charqueadas – propriedades rurais onde se produz o charque (carne salgada) – de Pelotas.
Estima-se que em alguns momentos os lanceiros negros, como ficaram conhecidos estes soldados, tenham representado metade do exército rio-grandense. O africano José, de nação angola, foi um desses homens que sonharam em conquistar a liberdade pegando em armas. Em dezembro de 1837, José foi preso e interrogado pelas autoridades imperiais em Porto Alegre, informando que quase toda a “infantaria dos brancos” já havia desertado e que naquele momento os combatentes seriam quase exclusivamente “pretos, uns com armas e outros com lanças”. Estas eram as principais armas do conflito, já que as de fogo ficaram restritas a uma minoria. Além disso, pelo próprio caráter de guerra móvel, muitas vezes os lanceiros negros entravam nos batalhões sem maiores treinamentos.
No final da década de 1850, o político, charqueador e ex-líder farroupilha Domingos José de Almeida (1797-1859) denunciou publicamente o conteúdo da correspondência que teria sido enviada pelo então barão de Caxias (1803-1880) a Francisco Pedro de Abreu. A Carta de Porongos conteria evidências de um acordo prévio entre Caxias (comandante do Exército imperial no conflito) e o líder farroupilha Davi Canabarro (1796-1867). O objetivo seria favorecer a vitória imperial no combate do Cerro de Porongos. Em determinado trecho, Caxias informaria a Francisco Pedro o local, o dia e o horário para o ataque, garantindo-lhe que a infantaria farroupilha estaria desarmada pelos seus líderes.
A partir de então, o Combate de Porongos gerou uma acalorada controvérsia entre os historiadores e estudiosos que se debruçaram sobre o tema da Guerra dos Farrapos. Com base na Carta de Porongos, surgiram acusações de que o general Davi Canabarro – comandante do destacamento de negros – teria traído a causa farroupilha ao desarmar e facilitar a derrota dos lanceiros. Essa atitude teria como objetivo facilitar a assinatura do tratado de paz que vinha sendo negociado, já que o governo imperial era contra a ideia farroupilha de conceder a alforria aos escravos que lutaram como soldados. Por outro lado, negar a liberdade e mandar os lanceiros de volta às senzalas era algo não cogitado nem por alguns farroupilhas, devido ao temor de que um grande contingente de escravos militarizados, politizados e insatisfeitos com o não cumprimento da prometida alforria insuflasse levantes – a quantidade de escravos na província do Rio Grande do Sul em 1846, um ano após o término da Guerra dos Farrapos, correspondia a 20,9% da população.
Relatos da época, como o de Manuel Alves da Silva Caldeira, farroupilha presente em Porongos, afirmam que Canabarro teria sido avisado da aproximação de tropas inimigas e, mesmo assim, não teria tomado providência alguma. Pelo contrário, teria propositalmente desarmado e separado os lanceiros do resto das tropas acampadas perto do Cerro de Porongos. Dando crédito a estes argumentos, o episódio teria sido uma traição aos soldados negros.
A autenticidade da Carta de Porongos, no entanto, é questionada por alguns estudiosos, já que a versão que se tornou pública é uma cópia, e a original nunca foi encontrada. Uma das explicações é que o documento teria sido forjado pelo coronel Francisco Pedro de Abreu após o combate para desmoralizar Canabarro, único chefe farroupilha que ainda teria condições de reaglutinar as desgastadas forças rebeldes. Félix de Azambuja Rangel, subordinado ao coronel Francisco Pedro, afirma ter presenciado o momento em que seu comandante levou a carta para Caxias assinar e em seguida distribuir cópias entre os adversários. Por essa versão, os lanceiros negros não teriam sido traídos, e sim pegos de surpresa pelas tropas imperiais, assim como seus comandantes.
Parece haver consenso entre os pesquisadores de que os lanceiros foram atacados em condições extremamente desfavoráveis, com inferioridade de armamentos, e que acabaram eliminados em quantidade considerável.
Somente nos últimos anos a importância e a dimensão da participação negra neste conflito têm recebido maior atenção. Hoje é possível afirmar com segurança que negros, índios e mestiços desempenharam papel fundamental na Guerra dos Farrapos não somente como soldados, mas também trabalhando em diversos outros setores importantes da economia de guerra, como nas estâncias de gado, na fabricação de pólvora e nas plantações de fumo e erva-mate cultivadas pelos rebeldes.
Apesar das promessas, em nenhum momento a República Rio-Grandense libertou seus escravos. A questão da abolição era controversa entre seus líderes. Ao mesmo tempo em que o governo rebelde prometia liberdade aos escravos engajados e condenava a continuidade do tráfico de escravos, seu jornal oficial, O Povo, estampava anúncios de fugas de cativos. Houve uma tentativa de abolição por meio de projeto apresentado na Assembleia Constituinte de 1842 por José Mariano de Mattos (1801-1866), que foi recusado. Anos após o fim do conflito, vários líderes farroupilhas ainda tinham escravos, como Bento Gonçalves (1788-1847), que morreu deixando 53 cativos para seus herdeiros.
O destino dos lanceiros negros no fim do conflito também é tema controverso. As negociações de paz, que resultaram na assinatura do Tratado de Ponche Verde em 1845, definiram que os escravos ainda engajados deveriam ser entregues ao barão de Caxias e reconhecidos como livres pelo Império. Sabe-se que, juntamente com outro grupo feito prisioneiro em batalhas, foram enviados ainda em 1845 para o Rio de Janeiro na condição de libertos, como noticiaram o Jornal do Commercio e o Diário do Rio de Janeiro de 26 de agosto daquele ano. Se de fato receberam a liberdade ao chegarem a seu destino, não se tem certeza. O ex-farroupilha Manuel Caldeira levantou suspeitas de que tenham sido novamente escravizados e levados para a Fazenda de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, agora como propriedade do Estado.
Alguns soldados negros podem ainda, ao longo do conflito, ter escapado para o Uruguai, formado quilombos ou mesmo buscado refúgio nas cidades, onde tentaram se passar por homens livres. Muitos permaneceram escravos no próprio Rio Grande do Sul. Um sobrinho-neto do general Antônio de Souza Netto (1801-1866) relata que, após a batalha de Porongos, uma parte dos lanceiros negros teria acompanhado seu antepassado farroupilha até sua propriedade no Uruguai, e que descendentes destes soldados viveriam até hoje nessa área rural conhecida como Estância “La Gloria”, na região de Paissandu.
Vinicius Pereira de Oliveira é autor de De Manoel Congo a Manoel de Paula: um africano ladino em terras meridionais (EST Edições, 2006); Cristian Jobi Salaini é autor da dissertação “Nossos heróis não morreram: um estudo antropológico sobre as formas de ‘ser negro’ e de ‘ser gaúcho’ no estado do Rio Grande do Sul” (UFRGS, 2006).
Saiba Mais - Bibliografia
CARRION, Raul K. M. “Os lanceiros negros na Guerra dos Farrapos”. In: Ciências e Letras nº 37, jan. 2005. Porto Alegre: Faculdade Porto-Alegrense de Educação.
CARVALHO, Daniela Vallandro de; OLIVEIRA, Vinicius Pereira de. “Os lanceiros Francisco Cabinda, João Aleijado, preto Antônio e outros personagens negros na Guerra dos Farrapos”. In: SILVA, Gilberto F.; SANTOS, José A. dos (orgs). RS Negro: cartografias sobre a produção do conhecimento. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008.
FLORES, Moacyr. Negros na Revolução Farroupilha: traição em Porongos e farsa em Ponche Verde. Porto Alegre: EST Edições, 2004.
LEITMAN, Spencer. “Negros farrapos: hipocrisia racial no sul do Brasil”. In: DACANAL, José Hildebrando. (org.). A Revolução Farroupilha: história e interpretação. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985.
Saiba Mais - CD e DVD
BARCELLOS, Daisy M. (Et all.). Lanceiros Negros: herança de Porongos (DVD). Porto Alegre: Iphan/12ª Superintendência Regional, 2007.
BARCELLOS, Daisy M. (Et all.). Lanceiros Negros: guia de referências históricas (CD-ROM). Porto Alegre: Iphan/12ª Superintendência Regional, 2007.
Saiba Mais - Filme
“Netto perde sua alma”, de Tabajara Ruas e Beto Souza, 2001.
Saiba Mais - Internet
CARVALHO, Ana Paula Comin de. “O memorial dos lanceiros negros: disputas simbólicas, configurações de identidades e relações interétnicas no sul do Brasil”. In: Sociedade e cultura. Vol. 8, nº 2. Goiânia: UFG, 2005.
http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/703/70380211.pdf
Por: Vinicius Pereira de Oliveira e Cristian Jobi Salaini
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